

Saber como precificar uma consulta particular exige considerar mais do que os valores cobrados por outros profissionais. É preciso entender os custos do consultório, definir quanto cobrar na primeira consulta e nos retornos, planejar reajustes e avaliar como fazer a transição dos convênios para o atendimento particular sem comprometer a agenda.
Sem critérios claros, o preço pode acabar sendo definido pelo receio de perder pacientes, e não pela realidade financeira do consultório. Por isso, a precificação precisa considerar tanto os custos e objetivos profissionais quanto as particularidades de cada etapa do atendimento.
Neste guia, você encontrará orientações para calcular o preço mínimo da consulta, definir valores para diferentes situações, planejar reajustes e comunicar mudanças aos pacientes. O conteúdo tem como referência o e-book Guia prático de precificação da consulta, do Dr. Fábio Soccol. Para aprofundar os fundamentos dessa decisão, confira o artigo "Definir o preço da consulta é uma decisão estratégica".
Todas as decisões abaixo partem de um piso: o menor valor que cobre os custos e a sua remuneração. Abaixo dele, cada consulta feita aumenta o prejuízo. O cálculo tem quatro passos:
A fórmula fica assim: preço mínimo = (custos fixos + remuneração) ÷ consultas por mês + custo variável por consulta.
Confira um exemplo com valores fictícios, só para mostrar a conta:
Item | Valor |
|---|---|
Custos fixos mensais | R$ 4.000 |
Remuneração desejada | R$ 12.000 |
Consultas realistas por mês | 60 |
Custo variável por consulta | R$ 15 |
Preço mínimo | R$ 282 (R$ 16.000 ÷ 60 = R$ 267, mais R$ 15) |
O número de consultas pesa mais do que parece. Com 45 consultas no mês, os mesmos custos levam o piso a cerca de R$ 371. É por isso que a estimativa precisa ser realista, não otimista.
Esse piso muda conforme o modelo de espaço. Em um consultório de aluguel mensal, o custo fixo existe em semanas de agenda cheia e de agenda vazia. Em um modelo de sala cobrada por uso, como o da Livance, parte desse custo passa a acompanhar as horas atendidas, o que muda os valores usados no cálculo do piso. A conta continua a mesma; o que muda são os valores que entram nela.
Para montar o levantamento sem partir do zero, use a calculadora de custos do consultório. Para simular o lucro de cada cenário de preço e de volume, há a calculadora de retorno financeiro.
O custo de uma consulta cresce com o tempo que ela ocupa na agenda. Divida o custo mensal pelas horas efetivamente atendidas para chegar ao custo da hora clínica e multiplique pela duração. Se a primeira consulta leva 60 minutos e o retorno leva 30, o preço do retorno parte de metade da primeira, e não do mesmo valor.
A pergunta que gera dúvida é quando um retorno vira uma nova consulta. O Parecer CREMEC nº 20/2020, do Conselho Regional de Medicina do Ceará, define a consulta como um ato médico completo (anamnese, exame físico, hipótese diagnóstica, pedido de exames e prescrição) que pode ser concluído em mais de um momento quando a prescrição depende de resultados de exames. O mesmo parecer lista quando uma nova cobrança se justifica. A tabela organiza os casos, na nossa leitura do parecer:
Situação | Nova cobrança? | Como tratar |
|---|---|---|
Paciente volta com os exames pedidos para fechar a mesma avaliação | Em geral, não: o ato médico se completa | Informe o prazo de retorno incluído, antes de agendar |
Paciente apresenta doença distinta da primeira consulta | Sim | Cobre como nova consulta |
Quadro mudou e exige nova anamnese, exame físico, hipótese diagnóstica e prescrição | Sim | Cobre como nova consulta |
Doença prolongada, com reavaliações e mudança de terapêutica | Sim | Cobre o retorno pelo valor que você definiu para ele |
Dúvida pontual depois da consulta | Decisão sua | Defina o canal e o limite, e deixe escrito |
Um parecer de conselho regional é orientação ética, não lei, e vale para o exercício da medicina. A coluna "Como tratar" é sugestão de rotina, não texto do parecer. O prazo de retorno incluído no preço (por exemplo, 30 dias) é política do consultório: nenhuma regra fixa esse número para a consulta particular.
O que importa é que a política exista, seja a mesma para todos e seja informada antes do agendamento. Vale o mesmo para falta e remarcação: defina até quando o paciente pode desmarcar, o que acontece se ele faltar e como o valor é devolvido ou aproveitado em um novo horário.
A migração costuma travar por medo de perder o volume do convênio. O caminho mais seguro é a transição gradual, que mantém parte da agenda com o convênio enquanto o particular se sustenta.
Desde março de 2026 há uma base ética clara para isso. O Parecer CFM nº 01/2026 entende que o médico pode organizar agendas distintas para pacientes particulares e de planos de saúde em consultório privado, com autonomia sobre a própria agenda. Em ordem de execução:
Para sustentar o bloco particular, vale ter uma forma de o paciente agendar com poucos passos. O guia sobre sistema de agendamento online mostra o que avaliar.
O preço da região é uma referência, não uma resposta. Duas consultas da mesma especialidade, no mesmo bairro, podem ter preços diferentes se a duração, a estrutura ou o público forem diferentes. Para comparar de forma justa, siga este roteiro:
Além do bairro, cinco fatores deslocam o preço de uma região para outra:
Se você atende em mais de um local, pode haver preços diferentes por local. Publique cada valor de forma clara, para o paciente não descobrir a diferença na recepção. A calculadora de preço da consulta dá um valor de referência por especialidade e ajuda a conferir a faixa antes de testar.
O reajuste preocupa mais pela base antiga do que pela nova, porque quem já é paciente tem uma referência de preço. O e-book propõe ajustes graduais em vez de mudanças bruscas. A sequência prática:
Alguns pacientes podem não aceitar o novo valor. O que importa é se a ocupação e a receita se sustentam depois do ajuste, e isso só aparece nos indicadores, não na primeira reação.
O e-book indica pacotes e programas para especialidades que exigem acompanhamento contínuo. Eles ajudam a criar vínculo, melhorar a adesão ao tratamento e reduzir cancelamentos, além de dar previsibilidade financeira ao paciente e ao consultório. A consulta avulsa continua útil para avaliações pontuais. A tabela compara os dois modelos:
Critério | Consulta avulsa | Pacote |
|---|---|---|
Quando faz sentido | Avaliação pontual, consulta única | Acompanhamento contínuo, com várias sessões |
Previsibilidade | Depende de cada agendamento | Maior, para você e para o paciente |
Vínculo e adesão | Depende de o paciente voltar | O pacote estimula a continuidade |
Principal cuidado | Faltas pesam na agenda | Regra clara de devolução e de remarcação |
Como precificar | Hora clínica × duração | Soma das sessões, com desconto que ainda cubra a hora clínica |
Defina o desconto do pacote a partir da sua margem, e não de um percentual de mercado. O teste é direto: o valor por sessão do pacote ainda precisa ser igual ou maior que o seu piso.
Pacote costuma vir com pagamento antecipado, e aqui há uma regra a observar. Segundo o Parecer CREMEC nº 20/2020, a cobrança antecipada não é recomendável porque coloca os honorários à frente da relação médico-paciente, mas não há impedimento ético em cobrar no ato do agendamento. Se a consulta não se realizar, o médico deve devolver o valor ou remarcar, porque o Código de Ética Médica veda cobrar por atendimento não prestado. Antes de adotar pacotes, confira a orientação do seu conselho. Psicólogos e nutricionistas devem consultar também o CFP e o CFN.
Olhar o que os colegas cobram faz parte da pesquisa, e o erro está em tratar esse número como resposta. Antes de usar um preço de referência, faça três perguntas:
Use a referência como faixa para posicionar o seu preço, depois de calcular o seu piso. O artigo sobre como definir o preço da consulta detalha por que a cópia falha e quais fatores formam o preço.
O aumento soa oportunista quando chega sem data, sem motivo ou em valores diferentes em cada canal. Cinco cuidados evitam isso:
Um modelo de mensagem, para adaptar ao seu tom:
Olá, [nome]. A partir de [data], o valor da consulta será R$ [valor]. O ajuste acompanha o aumento dos custos de manter o consultório e do tempo dedicado a cada atendimento. As consultas já agendadas mantêm o valor atual. Qualquer dúvida, é só responder esta mensagem.
A divulgação do valor é permitida. A Resolução CFM nº 2.336/2023 autoriza informar o valor da consulta e as formas de pagamento. Mais detalhes sobre o que a publicidade médica pode e não pode estão em o que o CFM permite em marketing médico.
Use esta lista como revisão final, adaptada do checklist do e-book:
Se houver respostas "não", resolva antes de aplicar o novo valor. O e-book Guia prático de precificação da consulta reúne essas estratégias e o checklist em formato de guia.
As decisões deste guia se encadeiam. Comece pelo piso (custos, remuneração e número realista de consultas), defina a política de retorno e só então avance para convênio, região, reajuste e pacote. Cada passo usa o número do anterior.
Quem atende em uma sala cobrada por uso tem parte do custo fixo convertida em variável, o que altera o piso do cálculo. Conheça as unidades Livance e agende uma visita. Para montar o seu cálculo com mais detalhe, baixe o Guia prático de precificação da consulta.
Não há uma média confiável e pública que sirva a todas as especialidades e regiões. O valor varia com a especialidade, a duração, a região e a estrutura. Por isso, parta do seu próprio piso e use a faixa dos consultórios da sua região como referência, não como regra.
Não existe um número universal. Calcule o custo da hora clínica (custos fixos e remuneração divididos pelas horas atendidas), multiplique pela duração da consulta e some o custo variável. Depois, compare o resultado com a faixa da sua região e ajuste pelo seu posicionamento.
Depende da política do seu consultório. Defina por quanto tempo o retorno está incluído, o que ele cobre e informe isso antes do agendamento. Segundo o Parecer CREMEC nº 20/2020, doença distinta ou quadro que exija nova avaliação justificam nova cobrança.
O Parecer CREMEC nº 20/2020 entende que não é recomendável, mas não há impedimento ético. Se a consulta não ocorrer, devolva o valor ou remarque. O Código de Ética Médica veda cobrar por atendimento não prestado.
Sim, em consultório privado, segundo o Parecer CFM nº 01/2026. O contrato com a operadora deve prever dias, horários e número de atendimentos. É vedada a dupla cobrança, a complementação indevida de honorários e a indução do paciente ao atendimento particular.
Um sinal é a agenda cheia por quatro semanas ou mais. Se ela tem buracos constantes, revise antes o valor, o posicionamento e a comunicação. O ajuste costuma funcionar em passos pequenos, de 10% a 15%, seguidos de acompanhamento.
Pode. A Resolução CFM nº 2.336/2023 permite informar o valor da consulta e as formas de pagamento. Mantenha o mesmo valor em todos os canais.
Acompanhe por pelo menos 30 dias a taxa de agendamento, a taxa de comparecimento, a satisfação e os retornos futuros e indicações. Se os quatro se mantêm ou melhoram, o preço está calibrado.





