

Muitos médicos hesitam antes de divulgar o próprio trabalho por medo de errar com o Conselho Regional de Medicina (CRM). A dúvida é frequente: pode falar de preço? Pode compartilhar um depoimento de paciente? Pode postar uma selfie no consultório sem cair em sensacionalismo?
Essa insegurança regulatória é um dos três motivos mais comuns para não investir em marketing médico, junto com a falta de posicionamento claro e o medo de parecer forçado nas redes sociais.
A Resolução CFM n.º 2.336/2023 responde a essas dúvidas de forma direta desde 2023. Ela permite divulgar valor de consulta, publicar selfie no consultório sem tom sensacionalista, compartilhar depoimentos sóbrios de pacientes autorizados e usar imagem de antes e depois com texto educativo. Continua proibido prometer resultado, comparar-se a colegas de forma desrespeitosa e usar linguagem que induza o paciente a erro.
Neste guia você encontra o detalhamento de cada regra e como aplicar isso na sua rotina, sem depender da intuição ou do que se ouve dizer no grupo de WhatsApp da sua especialidade.
Prática | Situação |
|---|---|
Divulgar valor da consulta e formas de pagamento | ✅ Permitido, se claro e sem induzir a erro |
Selfie no consultório | ✅ Permitido, sem tom sensacionalista |
CRM e RQE na bio e no perfil | ⚠️ Obrigatório |
Imagem de antes e depois | ✅ Permitido, paciente não identificável e texto educativo |
Depoimento de paciente | ✅ Permitido, tom sóbrio e sem promessa de resultado |
Prometer cura ou resultado específico | ❌ Proibido |
Comparar-se a outro profissional | ❌ Proibido |
Telemedicina como substituta da consulta presencial | ❌ Proibido em divulgação |
Anunciar dentro de farmácia ou ótica onde o médico é investidor | ❌ Proibido |
Até 2023, a publicidade médica seguia a Resolução CFM n.º 1.974/2011. Ela foi escrita em uma época em que Instagram e TikTok praticamente não existiam como canais de divulgação profissional. Por isso, a norma proibia coisas que hoje fazem parte da rotina de qualquer perfil profissional. Selfies, divulgação de valores de consulta, imagens de pacientes com fins educativos e uso de aparelhos e equipamentos em publicidade estavam todos vedados.
A Resolução n.º 2.336/2023 reconheceu essa defasagem e liberou boa parte disso, com condições. O próprio CFM resume ponto a ponto o que mudou na página oficial da resolução. A mudança reconhece que redes sociais e site profissional já são parte do trabalho de qualquer consultório particular, e que a regra antiga empurrava médicos para a informalidade ou para o silêncio total, sem proteger ninguém no processo.
Nome completo, número de inscrição no CRM seguido da palavra médico e a especialidade registrada com o número do RQE podem (e devem) aparecer em qualquer peça de divulgação, incluindo a bio das redes sociais. Isso vale tanto para perfil pessoal quanto para páginas de consultório ou clínica.
Autorretratos sem tom sensacionalista, imagens do ambiente de trabalho, fotos da equipe e informações práticas sobre agendamento e horários de atendimento estão liberados. A formação e manutenção de carteira de pacientes por meio de redes próprias também é permitida, desde que sem promessa de resultado.
Um detalhe técnico que passa despercebido: a resolução exige que CRM e RQE apareçam na página principal do perfil, não só em posts avulsos. Isso vale para Instagram, site profissional e qualquer outra rede usada com fins de divulgação. É um ajuste rápido de configuração de perfil, mas fica de fora da maioria das checklists de marketing que circulam entre profissionais de saúde.
Este foi um dos pontos que mais mudou. A resolução anterior proibia falar de preço. A atual permite informar o valor da consulta, formas de pagamento e até descontos em campanhas promocionais, desde que a informação seja clara e não induza o paciente a erro.
Comentários genéricos sobre a profissão são permitidos, assim como resultados comprováveis de tratamentos, desde que sem prometer o que vai acontecer com um paciente específico. Entrevistas e artigos com finalidade educativa também entram nessa categoria, junto com cursos abertos ao público leigo. Esse é o território mais seguro e mais valioso para quem quer construir autoridade sem risco regulatório.
Imagens do tipo antes e depois voltaram a ser permitidas, incluindo evoluções satisfatórias e insatisfatórias. Duas condições precisam estar presentes: o paciente não pode ser identificável, e a publicação precisa vir acompanhada de texto explicando indicações, resultados possíveis e complicações descritas na literatura. Elogios e depoimentos de pacientes também podem ser republicados. A régua aqui é o tom: sóbrio, sem adjetivo de superioridade e sem promessa de resultado.
Esta é a linha vermelha que atravessa toda a resolução. Garantir cura, prometer um resultado estético específico ou usar uma imagem de forma que sugira garantia é vedado. Isso vale mesmo dentro das categorias liberadas acima. Um antes e depois autorizado deixa de ser autorizado no momento em que a legenda promete o mesmo resultado para quem entrar em contato.
Divulgar um procedimento com o objetivo principal de exaltar a própria atuação segue proibido. O mesmo vale para adulterar dados estatísticos ou usar linguagem que cause intranquilidade no paciente. O conteúdo educativo pode, e deve, mostrar competência. A régua é informar, não se vender como o melhor ou o único da especialidade.
Comparar o próprio trabalho com o de outro profissional, ainda que de forma indireta, e se dirigir de forma desrespeitosa a colegas de profissão em qualquer canal público estão vedados. Isso inclui comentários em publicações de terceiros.
A resolução trata a telemedicina como complemento, não como alternativa equivalente ao atendimento presencial em qualquer divulgação. Oferecer teleconsulta como substituta integral da consulta presencial em anúncio é vedado.
Manter consultório dentro de farmácia ou ótica segue proibido. Fazer propaganda de empresas nas quais o médico é investidor, dentro do próprio espaço de atendimento, também. O mesmo cuidado vale para entrevistas à imprensa. Divulgar endereço e telefone do consultório ou usar a entrevista para angariar clientela direta fere a norma.
Há um ponto que costuma passar despercebido. A Livance, como empresa, pode falar sobre marketing médico com uma liberdade editorial que um médico individual não tem no próprio perfil. Um conteúdo institucional educativo, sem prometer resultado a nenhum paciente, não está sujeito à mesma régua de sobriedade que recai sobre a fala em primeira pessoa de um profissional em busca de pacientes.
Isso significa que o profissional que atende em uma unidade Livance tem acesso a conteúdo de referência sobre o tema, sem precisar navegar sozinho pela letra da resolução. Essa clareza pode ser aplicada direto no próprio posicionamento, com mais segurança. Saber exatamente onde está a linha entre o que atrai pacientes e o que gera denúncia no CRM já é, por si só, um diferencial competitivo. Boa parte da concorrência ainda trata publicidade médica como um assunto para resolver depois.
A resolução trata da divulgação, mas o mesmo cuidado se estende à interação nos comentários e nas mensagens diretas. Responder uma dúvida genérica sobre um sintoma em público, sem examinar ninguém, é conteúdo educativo. Já fazer uma triagem clínica por comentário ou DM é outra situação. Sugerir diagnóstico ou tratamento para uma pessoa específica sem consulta ultrapassa o limite da publicidade e entra em território de exercício profissional fora do consultório, o que traz outro tipo de risco.
A prática mais segura é responder de forma geral, sem citar nome, sintoma específico do paciente ou qualquer detalhe que identifique quem perguntou, e convidar para agendar uma consulta quando o assunto exigir avaliação individual. Isso mantém o canal aberto para engajamento, sem transformar as redes sociais em uma sala de espera informal.
Os erros mais frequentes não vêm de má-fé. Vêm de pressa ou de desconhecimento da letra da norma:
Nenhum desses erros exige gente de má intenção. Exige atenção ao detalhe, que é exatamente o que falta quando o profissional está sozinho tentando aprender regulamentação nas horas vagas entre atendimentos.
Marketing médico dentro das regras está mais para publicar com intenção, do que para evitar publicar. Antes de qualquer peça, três perguntas resolvem a maior parte do risco.
Vale para texto e para imagem. Uma legenda que promete resultado garantido quebra a regra tanto quanto uma foto de antes e depois sem o texto explicativo que a resolução exige.
Autorização verbal não basta para nada que vá ao ar. O ideal é um termo simples, assinado, guardado junto com o material, principalmente para depoimentos e imagens.
Isso inclui comentar em publicações de colegas de forma que sugira que o próprio trabalho é superior, mesmo sem citar nome.
Quando a resposta para as três é não, o conteúdo costuma estar dentro da norma. A partir daí, o espaço para construir autoridade é maior do que a maioria imagina. Falar sobre a própria especialidade, mostrar os bastidores do consultório, explicar como funciona um atendimento e responder dúvidas recorrentes de pacientes cabem no que a resolução chama de conteúdo educativo. É esse tipo de conteúdo que constrói autoridade de forma consistente, sem depender de nenhuma promessa. Para organizar essas ações dentro da própria estratégia de divulgação, o e-book de captação de pacientes por indicação reúne um passo a passo complementar ao que a resolução permite.
Vale notar que a própria resolução prevê um canal para dúvidas antes da publicação, não só depois: a Comissão de Divulgação e Ética em Publicidade Médica (Codame) de cada CRM responde a consultas sobre uma peça específica antes que ela vá ao ar. É um recurso pouco usado, mas evita boa parte do retrabalho de quem publica por conta própria e só descobre o problema depois de uma denúncia.
Presença digital é só parte da equação. Construir reputação fora de um vínculo institucional grande, como um hospital de referência, também passa por rede de indicação entre pares e por consistência ao longo do tempo, não por uma campanha isolada. Quem já passou por essa transição descreve o processo em detalhe em do hospital de referência ao consultório particular, incluindo a mesma nota sobre a Resolução 2.336/2023 aplicada ao dia a dia de quem está construindo marca própria.
Marketing médico dentro das regras constrói visibilidade que resiste ao tempo, justamente porque não depende de nenhuma zona cinzenta para funcionar. Esse é só um dos quatro pilares que sustentam uma estratégia completa. O guia marketing médico: por que só Instagram não basta detalha os outros três: posicionamento, presença digital e indicação.
Pode. A Resolução CFM n.º 2.336/2023 permite informar valores de consulta e formas de pagamento, desde que a informação seja clara e não induza o paciente a erro.
Pode, com autorização do paciente e em tom sóbrio, sem adjetivo de superioridade e sem promessa de resultado.
São, desde que sem características sensacionalistas. Essa é uma das mudanças em relação à resolução anterior, que vedava esse tipo de imagem.
Pode, com o paciente não identificável e acompanhadas de texto educativo sobre indicações, resultados possíveis e complicações descritas na literatura.
A Comissão de Divulgação e Ética em Publicidade Médica de cada CRM pode receber denúncias, inclusive anônimas. A partir daí, ela pode orientar a suspensão imediata do anúncio irregular e encaminhar o caso para apuração disciplinar em até 60 dias.
O obrigatório é ter essa informação visível na página principal do perfil. Ainda assim, repetir CRM e especialidade na bio e reforçar em peças institucionais reduz qualquer dúvida de quem chega até o conteúdo sem passar pelo perfil completo primeiro.





